Crônicas & Opiniões

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Jesus Guimarães


A ficha está caindo aos poucos, dez dias depois de perder a minha mãe. A última vez que nos falamos com alegria e descontração foi por telefone no dia do meu aniversário, 17 de maio. Ela teimava que a data caía no sábado, dia seguinte, e eu lhe explicava, fazendo contas, que era na sexta mesmo. Como já não enxergasse, não podia consultar calendários.

As pessoas se espantavam ao saber que, nessa idade, eu ainda tivesse mãe. Eu entendia o espanto, mas achava normal que assim fosse, que a tivesse viva, uma velhinha lúcida e teimosa de 96 anos de idade.

Jamais perdeu a disposição de palpitar na vida da gente, apontando saídas ou tentando proteger-nos com suas orações. Se alguém fosse viajar, sobretudo de avião, queria saber dia e hora da decolagem, inclusive o aeroporto, pois queria ter a certeza de que estava encaminhando a reza para o lugar certo. 

Até a minha adolescência, além das tarefas domésticas lavava, passava e costurava para terceiros a fim de complementar a renda familiar. Praticamente sem reclamar, pois julgava tratar-se de obrigação sua como mãe e esposa. Apoiava o estudo dos filhos dando-lhe prioridade sobre o trabalho; mais tarde cuidou dos netos para que nora e filha pudessem trabalhar. 

No fim da vida, sem poder assistir aos programas de TV, ouvia-os, principalmente os de notícias. Opinava sobre crimes, política e as partidas de futebol. Lembrava-se das datas natalícias de todos nós, ainda cantava as valsas e marchinhas da sua juventude.

Adoeceu, enfrentou uma cirurgia de quatro horas e um pós-operatório de quatorze dias. Apesar de todos os antibióticos possíveis, uma septicemia roubou-a de nós no dia três de junho último. Antes de ir para o centro cirúrgico, falou com a família por telefone. Deu conselhos, puxou orelhas e trucou dizendo que “ainda não seria dessa vez...”.

Infelizmente, foi.

Apesar de ser avô, homem de cabelos brancos, emancipado há muitas décadas, estou me sentindo órfão. A existência de minha mãe era ainda um guarda-chuva a me abrigar e eu não o admitia. 

Só agora começo a avaliar a verdadeira dimensão de sua perda e vou derramando pelos cantos as lágrimas que me faltaram em seu velório. Seguiremos em frente, tentando ser felizes, lembrando de suas lições e exemplos de vida. 

Quem ainda tiver mãe, que aproveite e cuide com carinho. Elas, de fato, são insubstituíveis. 

Jesus Guimarães é professor, bacharel em Direito, funcionário aposentado do BB e ex-prefeito de Tupã. E-mail: zuguim@uol.com.br

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