Dudu - o cachorrinho boleiro

Geral


19/02/2026 - Praticamente todas as minhas tardes de sábado eram reservadas para bater uma bola com os amigos, em um conceituado clube aqui da cidade; dificilmente eu deixava de ir. Campo bem cuidado, alambrado alto, gramado de fazer inveja a qualquer estádio por aí, clube cheio de histórias e uma resenha de primeira. Coisa raiz mesmo.
Era ali que a minha vida desacelerava!
E era ali que, de vez em quando, surgia uma cena que roubava a atenção até dos boleiros mais concentrados.
Bastava aparecer, na entrada do clube, um certo carrinho verde de um amigo meu, desde a infância. Não dava nem tempo de o motor esfriar, da porta pulava uma miniatura de cachorro. Pequeno no tamanho, gigante na energia. Era o Dudu.
Ele corria desesperado para onde eu costumava me trocar. Parecia que tinha radar. Via-me de longe e já vinha em disparada, patinhas ligeiras, orelhas pulando, rabo em rotação máxima. Eu mal colocava a mochila no banco e ele já estava ali, pedindo carinho como quem cobra presença.
E eu fazia. Sempre fazia.
Ele adorava. Fechava os olhinhos, jogava-se no chão, virava de barriga para cima. Ficava por ali até eu terminar de me trocar, como se cumprisse um ritual sagrado antes de a “pelada” começar.
Depois que eu calçava a chuteira, ele mudava o foco. Sabia que o jogo ia começar.
A primeira tentativa de companhia era sempre a mesma: provocar um velho cachorrão que morava por lá. Dono do pedaço, experiente, com olhar cansado de quem já viu muita bola rolar. Dudu chegava todo elétrico, pulando ao redor dele, latindo em convite. Mas o veterano não curtia a agitação. Às vezes respondia com um rosnado curto, daqueles que não deixam dúvida. Era o suficiente para afastar o pequeno.
Sem muito sucesso ali, Dudu partia para o plano B: um gato também antigão que vivia no clube. Mas o felino limitava-se a mostrar as unhas afiadas e um olhar nada amistoso. Recado dado. Brincadeira negada.
Havia também um bando de galinhas que, de vez em quando, aparecia por lá. Dudu tentava contato, porém, com medo, elas logo batiam em retirada.
Frustradas as tentativas, Dudu às vezes entrava no campo. Corria atrás da bola, pulava nas minhas pernas, tentava participar da pelada como se fosse mais um no time. Mas, assim que o jogo começava, ele saía. 
Parecia entender, do jeito dele, que aquele espaço tinha suas regras. Ficava na beirada, assistindo, esperando o intervalo para retomar sua missão de espalhar energia.
Isso se repetiu por bastante tempo. Sempre que meu amigo levava o Dudu, o clube ganhava um tempero a mais de alegria.
Até que, em um dia de resenha pós-jogo - aquela parte mais importante que o próprio futebol -, algo saiu do roteiro. Meu amigo, que raramente ficava para os finalmentes, decidiu permanecer. E, junto com ele, claro, ficou o Dudu.
Nas resenhas, o velho cachorrão tinha seu cantinho privativo. O pessoal sempre colocava alimento ali, respeitando o território do grandalhão. Mas, naquele dia, talvez por curiosidade, talvez por inocência, Dudu se aproximou demais.
E não prestou.
O dono do pedaço avançou. Era enorme, forte, difícil de conter. Foi um susto generalizado. Gente correndo, gritos, tentativas de separar. Por milagre - ou talvez pela própria agilidade do pequeno - Dudu saiu praticamente ileso. Assustado, mas inteiro.
A vida seguiu.
Até que, em um certo dia, infelizmente eu não pude ir ao treino. Justamente naquele dia, o destino resolveu ser cruel. Segundo meu amigo, logo na chegada ao clube, Dudu sofreu um ataque do velho ranzinza. E dessa vez não foi por comida nem por território disputado na resenha. Foi inesperado.
Houve socorro imediato: clínica veterinária, cuidados, esperança. Todo mundo torcendo pelo mascote da “pelada”.
Mas Dudu não resistiu.
E ali ficou um silêncio que não cabia no campo. Pelo menos em mim, abriu-se um hiato profundo por muito tempo. Porque, de certa forma, aquela alegria inocente me contagiava. Ele não entendia de rivalidade, de vaidade, de quem jogava melhor. Ele só queria brincar. Só queria estar perto. Só queria fazer parte.
Num ambiente em que discutíamos lateral como se fosse final de campeonato, Dudu era a lembrança viva de que o futebol, na essência, é isso: correr atrás da bola com felicidade.
Desde então, toda vez que via o carrinho verde estacionar perto do campo, por um segundo ainda esperava ver uma miniatura saltando porta afora.
Pois, algumas presenças são pequenas no tamanho.
Mas imensas na memória.

"Minhas divertidas aventuras pelo mundo do futebol de várzea, o futebol que amamos chamar de 'rachão', 'pelada', 'quebra-dedo', 'arranca-toco', 'racha-canela', entre muitos outros apelidos divertidos."
Texto: Paulo Cesar - PC

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