O fim da escala 6x1 é uma luta de todos nós

Geral


(*) Amauri Mortágua

20/05/2026 - Existe uma pergunta que precisa ecoar em cada casa, em cada fábrica, em cada comércio, em cada escritório e, principalmente, nos corredores do Congresso Nacional: até quando o trabalhador brasileiro continuará sobrevivendo sem tempo para viver?
A luta pelo fim da escala 6x1 não pertence apenas aos sindicatos ou às centrais sindicais. Ela pertence à mãe que sai de casa antes dos filhos acordarem e volta quando eles já estão dormindo e ainda tem que cuidar da casa. Pertence ao pai que trabalha seis dias seguidos e encontra apenas um único dia para descansar, resolver problemas, cuidar da família e tentar recuperar as forças. Pertence ao jovem que sonha em estudar, mas chega exausto demais para abrir um livro. Pertence ao idoso que dedicou uma vida inteira ao trabalho e sabe o preço físico e emocional da exploração excessiva.
Esta é uma luta de todos os brasileiros que acreditam que a vida deve ser mais do que apenas trabalhar até a exaustão.
O debate sobre a redução da jornada e o fim da escala 6x1 não é radical. Radical é aceitar que milhões de pessoas sejam privadas do direito ao descanso, ao lazer, ao convívio familiar e à própria felicidade. Radical é normalizar o adoecimento físico e mental provocado pelo excesso de trabalho. Radical é transformar seres humanos em máquinas descartáveis. Radical é incorporar os ganhos da tecnologia à produção, à empresa, no século XXI, e manter o trabalho no século XIX.
A própria Organização das Nações Unidas reconhece isso na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O artigo 24 afirma com clareza: “Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive à limitação razoável das horas de trabalho e a férias periódicas remuneradas”.
Não se trata de privilégio. Trata-se de dignidade humana, de direito inalienável.
O artigo 23 também reforça que toda pessoa tem direito a “condições justas e favoráveis de trabalho”. E é impossível chamar de justa uma rotina que sufoca sonhos, destrói relações familiares e impede milhões de brasileiros de viver plenamente.
O trabalhador não quer abandonar suas responsabilidades. O povo brasileiro quer apenas o direito de existir além do trabalho. Quer acompanhar o crescimento dos filhos. Quer cuidar da saúde. Quer estudar. Quer praticar esportes. Quer participar da comunidade. Quer sentar à mesa com a família sem estar dominado pelo cansaço extremo. Quer tempo para sorrir, para amar, para descansar e para viver.
Nenhuma nação se torna desenvolvida adoecendo sua população.
Os países que avançaram socialmente entenderam que produtividade não nasce da exaustão. Ela nasce de trabalhadores valorizados, descansados, motivados e respeitados. Mais tempo de descanso significa mais saúde mental, menos afastamentos, maior qualidade de vida e até melhores resultados econômicos. O mundo inteiro começa a compreender que qualidade de vida não é inimiga do crescimento. Pelo contrário: ela é condição para um crescimento sustentável e humano.
É preciso compreender que o Brasil não pode continuar preso a um modelo ultrapassado que sacrifica vidas em nome de uma produtividade ineficaz, porque trabalhar mais não significa produtividade, na medida em que esta decorre de um conjunto de fatores como o avanço da tecnologia, investimento em infraestrutura, organização do trabalho, qualificação da força de trabalho, equipamentos apropriados, entre outros.
Por isso, pressionar deputados federais e senadores pelo fim da escala 6x1 é um dever coletivo. O Congresso Nacional precisa ouvir a voz das ruas, das famílias, dos trabalhadores, da juventude. Esta parcela de 80% dos brasileiros que querem a mudança precisa se fazer ouvir. 
Cada brasileiro pode fazer sua parte: cobrando parlamentares, participando das mobilizações, debatendo nas redes sociais, conversando com amigos, familiares e colegas de trabalho. A transformação social nunca aconteceu pelo silêncio. Toda conquista histórica nasceu da coragem coletiva de quem decidiu lutar.
A redução da jornada e o fim da escala 6x1 representam mais do que uma mudança trabalhista. Representam um novo projeto de País. Um Brasil onde o trabalho tenha valor, mas onde a vida humana tenha valor ainda maior.
Porque ninguém nasceu apenas para trabalhar.
As pessoas nasceram para viver.

(*) Amauri Mortágua é presidente da UGT-SP, do Sindicato dos Comerciários de Tupã e Região e do Conselho Estadual de Trabalho e Renda (Ceter)

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