Dicionário futebolês do 'PC' - o jogador planta

Esportes


13/07/2026 - Antes que alguém se encane com essa gíria meio diferente, já vou avisando: o "jogador planta" do futebol de várzea não tem nadinha a ver com aqueles participantes daquele famoso reality show que começa todo início de ano. Lá, "planta" é o sujeito que passa meses dentro da casa sem fazer absolutamente nada, quase uma peça de decoração.
No nosso futebol raiz, a história era outra.
O “jogador planta”, muitas vezes por não ter tanta intimidade com a bola, compensava tudo na raça. Corria igual um condenado do começo ao fim da "pelada". Dava pique, marcava, atacava, brigava por cada bola, tomava canelada, levantava e seguia firme. Era aquele boleiro que cansava mais do que jogava.
Só que tanta correria tinha seu preço. Principalmente debaixo daquele sol de rachar mamona, logo aparecia uma pontada danada na barriga. A respiração travava, o corpo pesava e o jeito era diminuir o ritmo por alguns minutos.
Foi daí que nasceu uma das crendices mais curiosas do nosso velho futebol de várzea. O povo dizia que colocar algumas folhas na barriga ajudava a aliviar aquela dor provocada pelo excesso de corrida. Funcionava ou não? Ninguém sabia ao certo. Acreditando nesse mito, muito jogador já entrava em campo com um punhado de folhas por baixo da camisa, na certeza que assim conseguiria aguentar a correria até o final do jogo. Daí nasceu o nosso “jogador planta".

Essa crença jurássica era muito comum entre o pessoal lá da roça. Que o diga meu saudoso primo "Bia". E olha que ele não era nenhum "perebão". Muito pelo contrário. Jogava um bolão e carregava o time nas costas. 
Como corria do primeiro ao último minuto, vivia sofrendo com aquelas pontadas na barriga. Por isso, já entrava em campo com um punhado de folhas enfiadas no elástico do calção, parecendo mais um pé de planta ambulante do que um jogador de futebol. E não fazia a menor questão de esconder. As folhas ficavam ali, aparecendo para todo mundo ver, como se fossem parte do uniforme. 

A turma caía na risada e as gozações eram inevitáveis, mas o "Bia" nem ligava, pois acreditava que aquele "tratamento" ajudava a aliviar a dor, então vestia as folhas e ia para o jogo como se nada estivesse acontecendo.
Essa mania também pegou entre alguns "boleiros" aqui da cidade, contaminados pelos caipiras. Não era raro chegar a um campinho de terra e dar de cara com um jogador - geralmente aquele mais "pé duro" - usando folhas escondidas por baixo da camisa.
O mais engraçado é que ninguém chegava a um acordo sobre qual folha era a melhor. Uns juravam pela mamona. Outros defendiam a bananeira. Sempre aparecia um entendido dizendo que tinha aprendido o segredo com o avô, com um tio ou com algum benzedor da vizinhança. E como em "pelada" nunca falta quem tenha uma receita infalível, bastava alguém reclamar da dor que logo surgiam três ou quatro "doutores" oferecendo um tratamento diferente.
Eu mesmo já senti essa pontada quando exagerava na correria ou quando o calor castigava sem dó e, de tanto ver os caras usarem, também resolvi experimentar a tal folhinha milagrosa. Mas fazia tudo escondido. Enfiava as folhas por dentro da camisa, morrendo de vergonha de alguém perceber e começar a resenha.
Entrava em campo achando que ia voar os noventa minutos... Só que, comigo, o milagre nunca aconteceu. A pontada continuava firme e forte, e o jeito era respirar fundo, apertar os dentes e seguir correndo.
E eu não era o único. Muitos "boleiros cascudos" também recorriam à famosa folhinha, mas tudo na miúda. Ninguém queria correr o risco de ser descoberto e virar motivo de gozação.
Porque, se algum engraçadinho visse uma folha aparecendo na cintura, pronto... o cidadão estava lascado.
- Ô, pé de alface!
- Cadê o jardineiro?
- Vai criar raiz no meio-campo?
E daí para frente era só risada. Muitas vezes a dor na barriga até passava, mas a fama de "jogador planta" ficava por muito tempo.
Hoje esse costume praticamente desapareceu. Pelo menos nas "peladas" que ainda acompanho por aí, nunca mais vi ninguém entrar em campo com folhas por baixo da camisa. Acho que essa mania ficou mesmo no passado, junto com tantas outras simpatias, superstições e invenções que faziam parte da cultura do nosso futebol de várzea.
Com o avanço da medicina esportiva e o acesso muito mais fácil à informação, a velha folhinha deu lugar ao alongamento, à hidratação, ao preparo físico e às orientações dos profissionais da medicina do esporte.
Mas, cá entre nós, era justamente esse tipo de história que dava um charme todo especial ao futebol de antigamente. Cada campinho tinha seus personagens, suas invenções e suas lendas. Histórias simples, muitas vezes sem nenhum fundamento, mas que fazem parte da memória afetiva de quem viveu o verdadeiro futebol raiz.
E você, meu "boleiro" das antigas, já foi "jogador planta" algum dia? Ou também entrou em campo escondendo umas folhinhas na barriga, torcendo para que elas fizessem mais efeito do que o preparo físico?

Texto: Paulo Cesar - PC
"Minhas divertidas aventuras pelo mundo do futebol de várzea, aquele que amamos chamar de 'rachão', 'pelada', 'arranca-toco', 'quebra-dedo', entre tantos outros apelidos divertidos."
Blog Futebol Raiz 100

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