Quando o líder diz que dá liberdade, mas pune quem discorda

Geral


(*) Fábio Alexandre Guimarães Botteon
 
24/08/2026 - "Minha porta está sempre aberta." Poucas frases são tão repetidas por líderes dentro das organizações. Entretanto, existe uma pergunta que raramente é feita: o que acontece com quem realmente entra por essa porta para dizer algo que o líder não gostaria de ouvir?
Porque segurança psicológica não é aquilo que está escrito nos valores da empresa, mas aquilo que acontece depois que alguém discorda do chefe.
É nesse momento que a cultura revela sua verdade.
Existem equipes aparentemente tranquilas onde quase ninguém questiona decisões. Reuniões terminam rapidamente, conflitos são raros e todos parecem concordar com tudo. Para alguns gestores, isso pode parecer sinal de liderança eficiente.
Pode ser exatamente o contrário.
Talvez ninguém esteja concordando. Talvez todos tenham apenas aprendido que discordar custa caro.
Quando um colaborador percebe que questionamentos provocam ironia, retaliação, exposição pública ou perda de espaço, ele desenvolve um mecanismo de sobrevivência organizacional: o silêncio e equipes silenciosas são perigosas.
Elas não alertam sobre riscos. Não confrontam decisões ruins. Não apresentam ideias ousadas. Não comunicam problemas antecipadamente. Apenas executam aquilo que lhes foi solicitado e, quando algo dá errado, dizem internamente: "Eu sabia que isso aconteceria".
A empresa perde inteligência justamente porque criou um ambiente no qual as pessoas perceberam que pensar diferente não vale a pena, mas existe outro extremo igualmente preocupante, ao descobrir a importância da segurança psicológica, algumas organizações confundiram respeito com ausência de exigência. 
Qualquer cobrança passa a ser interpretada como pressão excessiva e qualquer feedback mais firme pode ser percebido como falta de empatia e alguns líderes, com receio de serem considerados autoritários, começam a tolerar atrasos, comportamentos inadequados e resultados abaixo do esperado.
Isso também destrói confiança porque os profissionais mais comprometidos observam rapidamente quando a organização cobra muito de alguns e quase nada de outros.
Por isso, segurança psicológica precisa caminhar junto com accountability.
Um ambiente saudável precisa permitir que alguém diga ao líder: "Acredito que essa decisão está equivocada". Mas também precisa permitir que o líder diga ao colaborador: "Sua entrega não corresponde ao que combinamos".
Nos dois casos, a relação precisa sobreviver à conversa.
Esse talvez seja um dos maiores indicadores de maturidade de uma equipe: a capacidade de conversar sobre assuntos desconfortáveis sem transformar divergência em ataque pessoal.
 O líder contemporâneo precisa abandonar dois personagens igualmente ultrapassados: o chefe que governa pelo medo e o gestor que tenta ser amado por todos. Liderança não é intimidar,nem tão pouco também não é agradar.
Liderar significa construir clareza. Estabelecer limites. Dar espaço para opiniões. Reconhecer vulnerabilidades. Cobrar compromissos. Corrigir comportamentos. Admitir os próprios erros. E principalmente criar um ambiente onde ninguém precise escolher entre preservar a relação e dizer a verdade.
Esse comportamento não nasce automaticamente com uma promoção para coordenador, gerente ou diretor. Precisa ser desenvolvido.
É exatamente por isso que empresas que investem apenas em ferramentas, processos e indicadores podem continuar enfrentando problemas de engajamento. Elas aperfeiçoam o sistema, mas esquecem daquele que influencia diariamente a experiência de trabalho: Mentorias e programas estruturados de desenvolvimento permitem trabalhar uma competência que dificilmente se aprende apenas lendo livros: a capacidade de sustentar conversas difíceis.
Como cobrar sem humilhar? Como discordar sem atacar? Como oferecer autonomia sem abandonar? Como reconhecer a vulnerabilidade sem perder autoridade? Como criar confiança sem abrir mão dos resultados? Essas perguntas representam a nova agenda da liderança.
Talvez o maior risco para uma empresa não seja possuir pessoas que discordam demais, mas sim possuir uma equipe inteira que já desistiu de discordar.
Por isso, antes de perguntar se seus colaboradores estão engajados, faça uma pergunta mais desconfortável: o que seus colaboradores sabem que não podem falar perto de você?
Aquilo que uma equipe teme dizer costuma revelar exatamente aquilo que a liderança ainda precisa desenvolver e entenda que a alta performance não nasce do medo e sim da não  permissividade.
Ela nasce quando existe um pacto claro: aqui você pode falar a verdade, mas também precisa assumir responsabilidade pelo que entrega.
Faz sentido para o seu momento atual? Se sim, adoraria trocar uma ideia com você.
 
(*) Fábio Alexandre Guimarães Botteon,
gestor de Pessoas e Mentor de Líderes - 
Instagram: @instituto.botteon

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