O nome na lápide e a lembrança da tragédia

Geral


15/09/2026 - Já são muitos anos convivendo nesse maravilhoso mundo do futebol de várzea e, durante todo esse tempo, muita coisa ficou guardada na minha cabeça. Às vezes, basta passar por determinada rua, bairro ou campo, encontrar um antigo companheiro ou ouvir o nome de um time daquela época para surgir, lá do fundo da memória, uma história que parecia esquecida.
E foi justamente isso, mais uma vez, que aconteceu comigo dias desses.
Depois de muito esforço e muita resiliência, hoje, com muito orgulho, faço parte, aqui na Aldeia, da equipe de Perícias Médico-Legais do Estado de São Paulo. Naquele dia, fui escalado para acompanhar e auxiliar os colegas em um trabalho pericial no cemitério da vizinha cidade de Iacri/SP.
Logo que chegamos, fomos muito bem recebidos pelo pessoal do cemitério que nos aguardava. Depois dos primeiros cumprimentos, fomos nos dirigindo para o local indicado para os trabalhos.
Como gosto de andar observando tudo ao meu redor, fui olhando as lápides, os túmulos e aquele ambiente de silêncio e calmaria, que sempre parece esconder algum mistério. Até que, um pouquinho antes de chegarmos ao local onde seriam realizados os trabalhos, meus olhos bateram numa lápide e, para minha surpresa, vi um nome que me era muito conhecido.
Sem perder tempo, perguntei a um dos senhores que nos acompanhava:
- É aquela pessoa mesmo? Ele confirmou.
Naquele instante, voltei no tempo para 26/08/1984, como estava marcado na lápide. Era pouco depois das 16h daquele dia, justamente o horário em que aconteceu a tragédia.
Naquele tempo, eu jogava pelo Itaúna, time que tinha sua sede na fazenda do mesmo nome. No time também jogavam meus primos "Zé do Fole", "Bia" e "Cidão", que moravam e trabalhavam na fazenda e que me convidaram para jogar pelo time.
Foi nessa mesma época, pouquinho depois de eu chegar ao Itaúna, que começou a jogar conosco aquele colega cujo nome, mais de quarenta anos depois, eu encontraria gravado naquela lápide. Ele morava em uma fazenda vizinha e pertencia a uma família tradicional da região, gente bem conhecida por aquelas bandas.
Apesar de só nos vermos aos domingos, aos poucos fomos criando aquela convivência de vestiário, de campo e das resenhas que o futebol sempre proporciona.
Naquele domingo, estávamos disputando uma partida de um grande torneio lá pelos lados do bairro Rancharia, quando aconteceu uma coisa que ninguém esperava.
Logo no começo do jogo, do nada, nosso colega passou mal. Ajoelhou-se no campo e, em seguida, caiu completamente, desfalecido.
Foi aquele momento de aflição dentro e fora do campo. A partida ficou em segundo plano, e todos se mobilizaram para tentar ajudá-lo e conseguir socorro.
Conseguiram colocá-lo em um carro e o levaram para o hospital. Porém, a distância até Iacri era considerável, principalmente para alguém que, apesar da pouca idade, aparentava estar sofrendo um infarto ou alguma outra coisa tão grave quanto. E não me recordo se a vicinal já era asfaltada naquela época, pois, se ainda fosse de terra, certamente o trajeto teria sido ainda mais demorado.
Infelizmente, apesar de todo o esforço, veio depois a notícia que ninguém queria receber: nosso companheiro havia falecido.
Aquela notícia trouxe uma tristeza enorme.
Tudo aquilo ficou marcado na memória. Era uma tragédia que ninguém queria ter presenciado, muito menos vivê-la dentro de uma partida de futebol.
Passaram-se mais de quarenta anos, e eu jamais poderia imaginar que, tantos anos depois, estaria diante de sua lápide, justamente no exercício da minha profissão.
Bastou encontrar seu nome gravado naquela pedra para tudo voltar com uma força impressionante, como se tivesse acontecido ontem.
O futebol tem dessas coisas. A gente joga, disputa, brinca, dá risada, faz amizade e guarda histórias. Muitas são boas e gostosas de lembrar. Outras, nem tanto.
Mas todas ficam.
E, vez ou outra, uma simples lembrança relacionada ao futebol acaba abrindo a porta do passado e fazendo a gente viajar no tempo.
No cemitério de Iacri, foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Por alguns instantes, eu não estava mais ali.
Estava de volta ao bairro Rancharia, em 1984, ao lado dos companheiros do Itaúna, revivendo aqueles momentos que o tempo levou, mas que o futebol fez questão de guardar na memória.
Talvez seja justamente essa uma das maiores forças do futebol: a capacidade de nos fazer voltar no tempo, mesmo depois de décadas, através de uma simples lembrança.
Naquele dia, não foi uma bola, uma camisa ou um antigo campo que abriu a porta do passado.
Foi um nome na lápide.

"Minhas divertidas aventuras pelo mundo do futebol de várzea - aquele que a gente ama chamar de 'rachão', 'pelada', 'arranca-toco', 'quebra-dedo' e tantos outros apelidos divertidos."
Texto: Paulo Cesar - PC

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