O 'bailão' da Associação dos Motoristas - a saideira era na base do carimbo !

Geral


14/10/2026 - Quem viveu aqueles bons tempos dos anos 80 sabe que as noites de sábado, para alguns de nós, pareciam não ter hora para acabar. A gente começava ali pela Avenida Tamoios, dava uma passadinha pelo calçadão da Potiguaras e, às vezes, até pegava uma sessãozinha de algum filme educativo no Cine Potiguaras, quando tinha.
Caso contrário, já ia direto para alguma quermesse que estivesse rolando. Depois, era se picar para alguma discoteca que estivesse promovendo uma brincadeira dançante, onde a gente curtia até as duas da manhã, horário em que geralmente o Dj encerrava a festa.
Mas alguns de nós ainda tinham disposição para mais uma! Quando o relógio já estava beirando as três da manhã, era aí que o famoso "bailão" da Associação dos Motoristas entrava no radar: era a nossa tradicional saideira!
Só que tinha um detalhe: a intenção era tentar entrar sem pagar, porque grana, que era bom, a gente já não tinha mais. E não era na conversa, no charme ou no chorinho para o porteiro. Era na base do carimbo! Calma que eu explico.
O pessoal que tinha entrado no "bailão", depois de um certo tempo, podia dar uma saidinha para tomar um ar fresco, pois fazia um calor de rachar lá dentro do salão. Aquilo parecia uma sauna, com a temperatura beirando uns mil graus! E, para controlar quem saía e quem podia voltar, o porteiro dava uma carimbada no antebraço da pessoa.
Era aí que entrava a nossa estratégia. Como a marca do carimbo acabava ficando toda borrada por causa do suor, era só encostar, com todo cuidado, um braço no outro, fazer aquela transferência de tinta na base da amizade e pronto! Para isso, bastava encontrar um amigo ou qualquer camarada disposto a colaborar, que já estivesse devidamente carimbado. Assim, estava garantido o nosso passaporte de entrada para o paraíso do "risca-faca".
E olha, acredito até que o leão de chácara que controlava a entrada e a saída sabia muito bem dessa nossa "fuleragem". Mas, sinceramente, não me lembro de ele ter questionado a gente alguma vez. Pelo contrário, tudo acontecia numa boa, sem discussão e sem cartão vermelho.
E, quando a gente finalmente adentrava o recinto, vinha aquele choque térmico momentâneo gostoso. Subia aquele mormaço quente, com um "cheirinho de fulô" que eu amava! O calor humano lá dentro era coisa de louco, não só pela temperatura, mas também pela mistura de gente que frequentava o baile. Tinha de tudo um pouco. Ali, realmente, acabava a distinção. Era uma mistura de estilos, rostos e histórias, todo mundo dividindo o mesmo espaço e curtindo o baile e as músicas à sua maneira.
O "bailão" cumpria fielmente sua função social, pois proporcionava entretenimento para todas as classes, sem distinção. Ali, não importava a condição financeira, a profissão ou de onde cada um vinha. O que valia mesmo era a vontade de se divertir, dançar e aproveitar a noite. Naquele salão, todo mundo tinha seu espaço, e talvez esse fosse um dos grandes "baratos" do "bailão"! Até alguns desentendimentos pontuais que às vezes surgiam por ali logo eram contornados, sem deixar que essas pequenas confusões atrapalhassem o andamento do baile.
Era só alegria, porque dificilmente você deixaria de dar uma arrastada no pé. Mesmo que não soubesse nada de forró, sempre tinha alguém para socorrer. Só não dançava quem não quisesse mesmo. Aquilo era um verdadeiro "bate-coxa" de respeito! Lá tocava de tudo um pouco, mas a única música de que me recordo é "A Volta das Andorinhas", do Trio Parada Dura.
O evento era conhecido como o "Bailão do Cumpadre Geraldão".
Por causa disso, eu acreditava que era ele quem promovia a festa. Só que, das vezes em que estive por lá, confesso que nunca o vi. Eu pensava comigo: vai ver que ele só aparecia para abrir o baile e depois já ia embora. Como a gente só chegava no fim, acabava não encontrando o homem!
A Associação dos Motoristas ficava ali na esquina das ruas Guaranis e Potiguaras, vizinha da saudosa e inesquecível Casa Moreira. Só de lembrar daquele pedaço da cidade, que também já abrigou as discotecas FlashDance, Holiday e Degrau - esta última chegou até a proporcionar um show da Banda Rádio Táxi, que fazia um grande sucesso na época, mas que, infelizmente, acabou tendo pouco público naquela apresentação -, já bate aquela saudade.
O calçadão, o Cine Potiguaras e até um velho hotelzinho no estilo "Treme-Treme", que ficava ao lado do estacionamento do sr. Zaros, ali na Rua Caetés, também faziam parte daquele contexto. Era muita coisa reunida num mesmo pedaço da cidade, que fervia de gente nas noites de sábado. Naqueles tempos, as madrugadas pareciam ter outro ritmo, e sempre existia um lugar para esticar a noite.
Hoje, olhando para trás, a gente dá risada dessas histórias. O calçadão, os filmes educativos, as discotecas, o "calorão" do "bailão", o suor escorrendo, o carimbo e a nossa engenharia para entrar de graça fazem parte de uma época que deixou boas lembranças. E fica a pergunta para quem viveu aqueles tempos: quem nunca terminou a noite num "bailão" desses, depois de rodar a cidade inteira, não sabe o que era uma verdadeira saideira!

Deixo aqui meu agradecimento especial ao senhor David de Castro pela gentileza de ceder a foto do recinto da Associação dos Motoristas, que ilustra esta crônica e ajuda a trazer de volta um pouquinho daqueles bons tempos. Por meio de sua coluna Fragmentos da História de Tupã, publicada no jornal Diário de Tupã, ele também realiza um belo trabalho de resgate da memória da nossa cidade, ajudando a manter vivas histórias e lembranças que merecem ser preservadas. Muito obrigado pela colaboração e por esse carinho com a história de Tupã!

"Minhas divertidas - às vezes nem tanto - 
aventuras pelos inesquecíveis anos 80."
Texto: Paulo Cesar - "PC" ou "Paulinho", depende da turma.

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