Javari Futebol Clube - O campeão do "Fifa Jurássico

Esportes


23/03/2026 - 23/03/2026 - Lá pelos anos de 1978 e 1979, muito antes de existir Playstation, Fifa virtual, console ou tela de led, eu já disputava minha liga particular. Quando não se tem TV em casa, é preciso se virar - e disso eu entendia bem naquele tempo. O meu era um Fifa jurássico, desses que não precisavam de tomada, bastavam imaginação, tempo, um lápis e um caderno brochura, sobra do ano letivo anterior, com as folhas já meio amareladas.
Hoje a molecada no Fifa pinta e borda, mexe em tudo, troca jogador de time, cria liga doida, inventa campeonato que nunca existiu. Na minha época - como já disse, jurássica - eu também fazia mais ou menos isso. O videogame, ou melhor, o brochura, ficava aberto em cima de uma mesinha velha que minha mãe já pensava em despachar, sempre com um lápis preto bem apontado ao lado.
Ali, eu mandava no jogo. Programava tudo: regulamento, tabela, classificação. Escolhia onze times aleatórios e colocava mais um, o principal de todos - o meu. Um clube totalmente imaginário, mas cheio de identidade. Assim nascia a minha liga, com doze equipes, turno e returno e sistema de pontos corridos, quando isso ainda nem era assunto por aqui. A ideia veio porque, certa vez, folheando uma famosa revista de esportes da época, vi que os campeonatos da Europa já adotavam esse modelo.
Eu jogava sozinho. Era um passatempo silencioso, totalmente secreto para a galera. Quando não rolava "rachão" no bairro, quando a turma não aparecia, eu tinha meu plano B - e fazia questão de não contar para ninguém. Aquilo era só meu. Talvez porque fosse difícil explicar, talvez porque certos mundos só funcionem no sigilo. Se alguém ficasse sabendo, podia virar "zoação" - e também o que eu mais temia: a imitação. Então eu guardava aquela brincadeira como quem guarda uma taça.
Meu time imaginário se chamava Javari Futebol Clube, inspirado no velho Clube Atlético Juventus - aquele time pequeno, chato, que adorava aprontar para cima dos grandes e, por isso, ganhou o apelido de "Moleque Travesso". A inspiração vinha também do fato de o Juventus ter sua sede na tradicional Rua Javari, no bairro da Mooca, em São Paulo, o que acabou dando nome ao meu time. Pequeno, atrevido, abusado - do jeito que eu gostava.
O estádio? Nada de arquibancada, nada de alambrado. O campo era o telhado inclinado da minha velha casa de madeira, já bastante surrada pelo tempo. A trave eram dois pedaços de madeira fincados perto da beirada, colocados ali de propósito para atrapalhar a visão da descida da bola e deixar o jogo mais difícil.
A bola era daquelas de plástico mole, levinha, clássico presente de festa em evento público - aliás, que eu tinha ganhado num Dia das Crianças. Não era só opção técnica, era sobrevivência. Bola pesada eu nem conseguia arremessar no telhado - e, se conseguisse, corria o risco de quebrar telha. E telha quebrada era problema sério, com o chinelo nervoso da minha saudosa mãe sempre no radar.
Os jogos aconteciam conforme a minha vontade. Não tinha calendário apertado, TV mandando em horário nobre nem cartola reclamando da tabela. Em média, dava para fazer quatro ou cinco partidas por dia. Mais que isso não rolava: o braço cansava, a concentração ia embora, o sol refletia no telhado e castigava a vista. Montar campeonato dá trabalho - mesmo quando só tem um jogador em campo.
O jogo, na prática, funcionava assim - e aí estava o segredo da brincadeira. Eu ficava posicionado no meio do "gol", olhando para o telhado. Olhando para o telhado é meio força de expressão, pois literalmente ficava embaixo dele. Então lançava a bola por cima da cumeeira. 
A partir daí, tudo virava imprevisível, pois a bola batia nas telhas, quicava torta, ganhava efeito, às vezes deslizava, às vezes vinha pingando e descia em direção ao gol. Era como se cada chute fosse um ataque diferente, com trajetória única - tinha bola que vinha fácil, parecia recuo de zagueiro; outras vinham traiçoeiras, rápidas, desviando, exigindo defesa no susto.
Minha missão era defender com as mãos, ou de qualquer outro jeito, antes que ela passasse entre as "traves" improvisadas ou escapasse por um dos cantos. Se eu agarrasse ou espalmasse para fora, defesa feita. Se a bola passasse direto ou eu não alcançasse, era gol. Simples assim - mas, na prática, cheio de emoção, porque nunca dava pra saber como a bola ia voltar.
Cada time tinha cinco ataques. Vamos supor: Corinthians contra Palmeiras. Primeiro o Timão. Eu lançava cinco bolas, uma por vez, sempre repetindo o ritual: jogava no telhado, esperava a descida e tentava defender. Se, dessas cinco, eu defendesse três e duas entrassem, eram dois gols do Corinthians. Depois vinha o Verdão, com as mesmas cinco chances. Se fizesse três, virava o jogo e ganhava por 3 a 2.
O regulamento era simples, escrito à mão e sem direito a recurso:
- Vitória por até dois gols: 2 pontos
- Vitória por três ou mais gols: 3 pontos
- Empate: 1 ponto
Quem somasse mais pontos levava o caneco. E claro - quase sempre, ou melhor, sempre - o Javari acabava campeão. Afinal, não fazia sentido todo aquele trabalho, todo aquele desgaste físico e mental, para ver meu time apanhar. Liga de uso interno tem dessas coisas: o apito final obedece à imaginação.
Hoje eu penso que aquele telhado era mais do que um campo. Era um estádio do mundo. A bola de plástico, uma taça em movimento. O caderno brochura, uma confederação inteira. E o menino ali, jogando sozinho, em silêncio, já sabia que futebol não é só o que se joga com os pés - é o que se inventa com a cabeça e se guarda com cuidado, para não quebrar telha nem acordar o chinelo.
E o Javari Futebol Clube, mesmo invisível para o mundo, segue invicto onde sempre importou: no território sagrado da infância.

"Minhas divertidas aventuras pelo mundo do futebol de várzea, aquele que amamos chamar de 'pelada', 'rachão', 'arranca-toco', 'quebra-dedo', entre tantos outros apelidos criativos." Texto: Paulo Cesar - PC

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