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(*) Adriano de Oliveira
23/01/2026 - A clonagem de voz já faz parte do nosso dia a dia digital, porém quando usada sem consentimento para fins maliciosos, pode ser considerada uma forma de bullying ou assédio. Um áudio que imita o jeito de falar de um colega pode ser usado para difamar, humilhar ou até confessar algo que nunca aconteceu.
O efeito é imediato, as reputações caem, as amizades se rompem, a confiança se perde. Nessa hora, duas respostas precisam caminhar juntas, o acolhimento ao dano emocional e a reparação do dano moral. Sem esse combo, a gente só apaga incêndio e o dano emocional continua em brasas.
É importante sempre verificar antes de opinar, afinal, esse áudio veio de onde? O número é confiável? Há mudanças estranhas no ritmo da fala, na respiração, nas pausas?
Guarde evidências, como número, links, plataforma e horários sem espalhar o assunto. Peça a remoção nas plataformas e comunique todos os responsáveis, e quando for o caso, registre a ocorrência para que exista trilha formal. Fuja do impulso de desmascarar no grupo ou dar respostas intempestivas, pois isso pode virar espetáculo e aumentar a dor de quem foi atacado.
O cuidado humano no acolhimento deve ser imediato e sem julgamentos. Quem sofreu o ataque precisa ouvir que não está sozinho e que não é o áudio que define quem a pessoa é.
Validar sentimentos como medo, raiva ou vergonha não alimenta vitimismo, pelo contrário, cria base para decisões melhores. Organizar rotina ajuda a recuperar segurança como colocar o sono em dia, dar uma pausa às telas e abrir um diálogo para elevar o vínculo da confiança.
E aqui entra uma aliada poderosa, a psicoterapia, que nas crianças e adolescentes aprendem a separar o que me aconteceu de quem eu sou. Essa diferenciação diminui a culpa emprestada e fortalece a autoestima.
A terapia ensina controlar impulsos, leva à reflexão (de onde veio? quem ganha com isso? em quem confio para checar?) e ajuda os responsáveis sem se expor mais.
Para as famílias, a terapia oferece um roteiro de conversas não julgadoras e punitivas onde o resultado é simples e potente com menos reatividade, mais clareza, menos exposição e uma rota consistente de reconstrução de confiança.
Aí venho propor uma reflexão: vamos normalizar e verificar antes de opinar? Proteger antes de expor? Denunciar antes de compartilhar?
A ética do cuidado começa no nosso toque de tela, afinal uma clonagem de voz não é brincadeira: é um teste de comunidade. Verifique. Registre. Denuncie. Acolha. Encaminhe. Acompanhe.
Com psicoterapia, a pessoa deixa de ser o caso do áudio, se reconstrói e devolve voz, coragem e direção para seguir a vida.
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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