Quando o medo de errar vira medo de existir

Variedades


 

(*) Adriano de Oliveira

27/02/2026 - Há adolescentes que não dão trabalho, não faltam na escola, não se envolvem em confusão, não “explodem” com frequência e até parecem maduros demais para a idade; são educados, responsáveis, organizados. 
Muitos pais olham para esse perfil e pensam: “Meu filho está bem”, mas por trás desse comportamento exemplar, pode existir um sofrimento silencioso e muito comum nos dias atuais: o adolescente que parece bem, mas vive em alerta.
Esse jovem acorda já com a mente acelerada, vive com uma sensação constante de que precisa estar pronto para tudo: provas, expectativas, cobranças, desempenho, aparência, amizades, redes sociais, futuro. 
Ele tenta dar conta de ser perfeito em várias áreas ao mesmo tempo e, quando não consegue, o sentimento não é apenas frustração, é culpa, é vergonha, ou seja, é uma sensação de que está decepcionando todo mundo.
O medo intenso de errar, de falhar, de não ser suficiente e de não corresponder pode virar um peso enorme e muitos adolescentes crescem acreditando que precisam ser fortes, produtivos e impecáveis para serem amados e aceitos. Esses sentimentos não nascem do nada, pode vir de experiências escolares, comparações, comentários familiares, pressão social, exigência interna, e principalmente do ambiente atual, onde tudo parece ser medido, avaliado e exposto.
Quando esse padrão se instala, o corpo começa a falar, crises de ansiedade se tornam frequentes, a insônia aparece porque a mente não “desliga”, a irritabilidade aumenta porque o adolescente vive no limite e, em muitos casos, surgem somatizações: dores de cabeça, dor abdominal, náuseas, falta de ar, palpitações, tensão muscular. 
O adolescente pode até fazer exames e não aparecer nada, mas isso não significa que não exista sofrimento, mas sim isso significa que a dor é emocional e está transbordando no corpo.
Além disso, a insegurança e a comparação constante prejudicam profundamente as relações interpessoais, momento em que o adolescente pode se sentir inferior, inadequado, “menos interessante”, “menos bonito”, “menos inteligente”. 
Ele pode evitar grupos, se calar, se afastar ou agir de forma defensiva; em outros casos, tenta agradar o tempo todo, tem medo de desagradar e se torna emocionalmente dependente da validação externa, e as relações sociais, que deveriam ser fonte de apoio, viram fonte de ansiedade.
O que muitos pais não percebem é que esse adolescente, por fora, está funcionando, mas por dentro está sobrevivendo, e, quanto mais ele tenta manter a imagem de que está tudo bem, mais ele se distancia de si mesmo, ele não sabe mais o que sente, não sabe mais o que quer, não sabe mais onde termina a expectativa dos outros e onde começa a própria identidade.
É exatamente por isso que a psicoterapia é tão importante, ela abre um espaço de prevenção, proteção e fortalecimento emocional. 
Na psicoterapia, o adolescente encontra um lugar seguro para organizar pensamentos, reconhecer emoções e entender o que está acontecendo com ele. Ele aprende a diferenciar cobrança saudável de autocobrança destrutiva  e aprende a construir limites internos, a lidar com frustrações e a se posicionar sem medo.
A psicoterapia ajuda a reorganizar a autoestima, reduzir a pressão interna e desenvolver regulação emocional, ela ensina o adolescente a se acolher em vez de se punir, e, principalmente, fortalece identidade e autonomia emocional, afinal ele aprende a não viver apenas para agradar, a não depender de aprovação para se sentir valioso e a construir uma vida mais leve, com propósito e equilíbrio.
Quando um adolescente vive em alerta, ele não precisa de mais cobrança, ele precisa de suporte, e, nesse momento, buscar psicoterapia é uma forma madura de dizer: “Eu quero que você cresça com autonomia e capacidade de resolver suas demandas na vida”, afinal, desempenho sem saúde emocional tem um custo alto e nenhum sucesso compensa perder a paz.


(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira

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