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(*) Adriano de Oliveira
26/06/2026 - A insegurança na adolescência pode parecer apenas uma fase, mas, quando não é acolhida, compreendida e trabalhada, pode se transformar em um padrão de vida. O adolescente que cresce duvidando do próprio valor pode se tornar um adulto que até conquista coisas importantes, mas não consegue desfrutar delas. Ele chega, mas não se sente merecedor, é elogiado, mas não acredita, é amado, mas desconfia, ou seja, tem capacidade, mas se encolhe.
O impacto da insegurança adolescente na vida adulta aparece, muitas vezes, nas pequenas escolhas do cotidiano. Aparece quando a pessoa evita se posicionar em uma reunião por medo de parecer inadequada; aparece quando aceita relações desequilibradas por medo de ficar sozinha; aparece quando abandona sonhos antes de começar, porque acredita que não vai conseguir; aparece quando transforma qualquer erro em prova de fracasso pessoal.
Na adolescência, a identidade ainda está em construção, é uma fase em que o jovem busca pertencimento, reconhecimento e validação. Quando essa etapa é atravessada com excesso de crítica, comparação, rejeição ou ausência de escuta, o adolescente pode construir uma visão distorcida de si mesmo. Ele deixa de se perceber como alguém em desenvolvimento e passa a se enxergar como alguém inadequado.
Essa ferida pode acompanhar a pessoa por muitos anos. Na vida profissional, pode surgir como síndrome do impostor, medo de exposição, necessidade de agradar chefes, dificuldade de receber críticas e pânico de errar. Na vida afetiva, pode aparecer como apego ansioso, submissão emocional, medo de abandono, ciúme, insegurança corporal e baixa autoestima. Na vida social, pode gerar isolamento, sensação de inadequação e dificuldade de criar vínculos verdadeiros.
Muitos adultos não percebem que suas dores atuais têm raízes em experiências antigas. Dizem que são “assim mesmo”, que sempre foram tímidos, complicados, desconfiados ou intensos. Mas, em muitos casos, não se trata de personalidade apenas, trata-se de defesa emocional. Uma forma de sobreviver construída por alguém que, lá atrás, precisou se proteger da rejeição, da crítica ou da sensação de não ser suficiente.
O adolescente inseguro aprende a se adaptar para ser aceito. Alguns viram adultos agradadores, que evitam conflitos e vivem tentando manter todos satisfeitos. Outros se tornam controladores, porque acreditam que só estarão seguros se tudo estiver sob domínio. Há também os que se tornam extremamente exigentes consigo mesmos, confundindo autovalor com produtividade, beleza, sucesso ou aprovação externa.
O problema é que nenhuma conquista externa cura, sozinha, uma identidade ferida. A pessoa pode ganhar dinheiro, formar família, ser reconhecida, ocupar cargos importantes e, ainda assim, carregar a sensação íntima de que algo nela não está certo, por isso, tratar a insegurança não é luxo emocional, mas sim é cuidado estruturante, é base para uma vida adulta mais saudável, mais livre e mais coerente.
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a revisitar essas marcas sem ficar presa a elas. Ajuda a reconhecer padrões, nomear dores, fortalecer autoestima, desenvolver limites e construir novas formas de se relacionar. A terapia não muda a história vivida, mas muda a forma como essa história continua influenciando as escolhas, os vínculos e a percepção de valor pessoal.
Cuidar de um adolescente inseguro hoje é evitar que ele se torne um adulto que vive com medo de ocupar seu lugar no mundo. E cuidar do adulto inseguro é oferecer a ele a chance de parar de sobreviver emocionalmente e começar a viver com mais presença, autonomia e dignidade.
Porque a insegurança não tratada não desaparece com a idade, ela amadurece junto com a pessoa, e quando amadurece sem cuidado, pode roubar coragem, vínculos, oportunidades e paz. Mas quando encontra escuta, acolhimento e tratamento, pode se transformar em consciência, força e reconstrução.
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383 -
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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