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(*) Adriano de Oliveira
13/07/2026 - Existe uma dor que começa cedo demais: a dor de não se sentir prioridade dentro da própria família. O adolescente que cresce em um ambiente marcado por ausência, instabilidade, rejeição, conflitos, abandono emocional ou falta de cuidado consistente pode aprender, ainda muito jovem, que amor é algo incerto. Ele não cresce apenas sem estrutura familiar; cresce sem referência segura de pertencimento.
Quando a família não oferece presença emocional, o adolescente pode desenvolver uma pergunta silenciosa que o acompanha por muitos anos: “será que eu realmente importo para alguém?”. Essa pergunta, quando não é acolhida, vira ferida. E essa ferida pode atravessar a adolescência, entrar na vida adulta e aparecer nas relações pessoais, amorosas e familiares de forma intensa.
Na vida adulta, essa pessoa pode desejar profundamente construir uma família, ter uma relação estável, viver um amor tranquilo e criar um ambiente diferente daquele que viveu. Mas desejar não significa saber como fazer. Muitos adultos carregam a vontade de construir um lar, mas não aprenderam o que sustenta um lar. Não aprenderam diálogo, reparação, escuta, prioridade, presença, limite e confiança. Aprenderam sobre a sobrevivência emocional.
Por isso, quando entram em relações, podem oscilar entre dois extremos: ou se entregam demais por medo de perder, ou se afastam demais por medo de depender. Podem cobrar presença com intensidade, porque a ausência toca dores antigas. Podem se fechar diante de conflitos, porque nunca viram adultos resolvendo problemas com maturidade. Podem desconfiar de quem oferece amor, porque, lá atrás, o amor veio misturado com abandono, instabilidade ou decepção.
A confiança se quebra com facilidade quando alguém que já se sentiu deixado de lado percebe que novamente não é prioridade.
Para essa pessoa, uma ausência pode doer mais do que parece. Uma mensagem ignorada pode ativar memórias emocionais antigas. Um compromisso desmarcado pode parecer rejeição. Um parceiro distante pode ser interpretado como abandono. A dor atual conversa com a dor antiga.
Isso não significa que todo sentimento de insegurança esteja correto ou que o outro seja sempre culpado. Mas significa que algumas reações adultas só fazem sentido quando olhamos para a história emocional daquela pessoa. Quem cresceu sem estrutura familiar pode não ter aprendido a confiar com leveza. Pode viver relações em estado de alerta, tentando prever quando será deixado, trocado ou esquecido.
O grande desafio é que ninguém constrói uma família saudável apenas com vontade. É preciso aprender. Aprender a comunicar sem atacar. Aprender a pedir sem implorar. Aprender a confiar sem vigiar. Aprender a amar sem se anular. Aprender a permanecer sem repetir padrões de dor. Aprender que prioridade não é controle, mas cuidado. Não é posse, mas presença. Não é exigência, mas construção diária.
A psicoterapia pode ser um espaço fundamental nesse processo, porque ajuda o adulto a compreender de onde vêm suas inseguranças, suas reações e seus medos. Ajuda a diferenciar abandono real de gatilhos emocionais. Ajuda a construir recursos internos para não transformar toda ausência em sentença, nem toda relação em campo de batalha.
Quem não teve estrutura familiar não está condenado a repetir a falta de estrutura. Mas precisa reconhecer que amor também exige aprendizado. Construir uma família saudável começa quando a pessoa para de tentar apenas ser escolhida pelo outro e começa a escolher, com consciência, que tipo de vínculo deseja construir.
Porque o adulto que nunca foi prioridade na adolescência não precisa passar a vida implorando por lugar. Ele pode aprender a construir um lugar seguro dentro de si — e, a partir disso, construir relações onde confiança, presença e cuidado não sejam exceção, mas base.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo
- CRP: 06/150383 -
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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