Seu filho mudou nas férias ou você apenas teve mais tempo para perceber?

Variedades


 

(*) Adriano de Oliveira

17/07/2026 - Durante o período escolar, a vida do adolescente costuma ser marcada por horários, provas, tarefas, compromissos, atividades extracurriculares e cobranças por desempenho. A rotina intensa pode funcionar como uma espécie de cortina: mantém o jovem ocupado, limita o tempo de convivência familiar e, muitas vezes, esconde sinais importantes sobre como ele realmente está se sentindo. Quando chegam as férias e os compromissos diminuem, os pais passam a observar mais de perto comportamentos que antes poderiam ser atribuídos apenas ao cansaço ou à falta de tempo.
É nesse momento que surgem algumas dúvidas: dormir até mais tarde é apenas recuperação física ou sinal de desânimo? Ficar mais tempo no quarto representa necessidade de privacidade ou isolamento emocional? Passar horas no celular é uma forma de entretenimento ou uma tentativa de escapar de sentimentos desconfortáveis? 
Nem todo comportamento diferente indica um problema psicológico, mas toda mudança persistente merece atenção, acolhimento e diálogo.
Observar não significa vigiar. Muitos pais, preocupados, passam a monitorar excessivamente o adolescente, questionando cada mensagem, amizade ou escolha. Essa postura pode aumentar a resistência e criar ainda mais distanciamento. A observação saudável acontece com presença, disponibilidade e interesse verdadeiro. É perceber alterações no sono, na alimentação, no humor, na comunicação, na disposição e na maneira como o jovem se relaciona consigo mesmo e com as pessoas ao redor.
Também é importante avaliar a intensidade, a frequência e a duração das mudanças. Um adolescente pode passar alguns dias dormindo mais, querendo ficar sozinho ou demonstrando irritação após um período escolar desgastante. Isso pode fazer parte do processo natural de descanso. 
Entretanto, quando a apatia se prolonga, o jovem abandona atividades que antes apreciava, evita amigos, apresenta explosões constantes, fala de si com desprezo ou demonstra desesperança, a família precisa ampliar o olhar.
As férias também podem evidenciar dificuldades relacionadas à autoestima e ao pertencimento. Durante as aulas, o adolescente possui uma estrutura social definida. Ele encontra colegas, participa de grupos e ocupa determinados papéis. Com a interrupção dessa rotina, alguns jovens percebem que suas amizades eram mais frágeis do que imaginavam. Outros se sentem excluídos ao acompanhar, pelas redes sociais, viagens, festas e encontros dos quais não participam. A comparação pode despertar sentimentos de inadequação, solidão e insuficiência.
Outro aspecto relevante é a inversão completa dos horários. Dormir durante o dia, permanecer acordado durante a madrugada e perder a noção de rotina pode parecer inofensivo no início, mas, quando se torna extremo, tende a afetar o humor, a energia e a convivência familiar. 
Os pais não precisam transformar as férias em um regime rígido, porém é saudável manter referências mínimas de organização, autocuidado, alimentação, sono, lazer e responsabilidades.
Conversas importantes dificilmente acontecem sob pressão. Perguntas como “o que você tem?”, “por que está desse jeito?” ou “você não valoriza nada?” podem soar acusatórias. Uma abordagem mais acolhedora seria: “Percebi que você está mais quieto nos últimos dias. Não quero invadir seu espaço, mas estou disponível caso queira conversar”. Essa comunicação demonstra percepção sem julgamento e disponibilidade sem imposição.
Em algumas situações, o adolescente pode não conseguir falar com os pais, mesmo quando existe amor e confiança. Isso não significa rejeição à família. Muitas vezes, ele teme preocupar os adultos, ser criticado, perder a privacidade ou ouvir respostas prontas. É nesse contexto que a psicoterapia pode desempenhar um papel fundamental.
O espaço terapêutico oferece escuta qualificada, sigilo e acolhimento. O adolescente pode organizar pensamentos, compreender emoções, reconhecer padrões de comportamento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar conflitos, frustrações e inseguranças. A psicoterapia não deve ser apresentada como punição ou como prova de que existe “algo errado”, mas como um recurso de cuidado e desenvolvimento.
As férias podem ser uma oportunidade estratégica para iniciar esse processo, pois há menor sobrecarga acadêmica e mais disponibilidade para a adaptação ao acompanhamento. Quanto mais cedo o sofrimento emocional é reconhecido, maiores são as possibilidades de prevenção e fortalecimento.
Observar o adolescente nas férias é aprender a enxergá-lo além das notas, das obrigações e do comportamento esperado. É perceber o que ele comunica por meio do silêncio, da irritação, do afastamento ou da necessidade de atenção. Mais do que controlar, os pais precisam construir um ambiente onde o jovem se sinta seguro para existir, sentir, errar e pedir ajuda.
A presença familiar não elimina todas as dificuldades, mas pode impedir que o adolescente atravesse seus conflitos acreditando que está sozinho. E, quando o cuidado da família se une ao suporte da psicoterapia, cria-se uma rede de proteção capaz de transformar sofrimento em consciência, amadurecimento e possibilidades de mudança.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?


(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo - 
CRP: 06/150383 - 
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira 

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