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(*) Adriano de Oliveira
24/07/2026 - Nos primeiros dias de férias, tudo parecia normal. O adolescente dormia até mais tarde, passava horas no celular e evitava sair do quarto. Os pais interpretaram como cansaço acumulado. Afinal, depois de meses de provas, cobranças e compromissos, ele precisava descansar.
Mas os dias passaram e o quarto continuava fechado, as mensagens dos amigos diminuíram, as refeições em família tornaram-se silenciosas.
Quando alguém perguntava se estava tudo bem, a resposta surgia rápida: “Estou apenas cansado”. E ninguém insistia.
Durante o período escolar, a rotina pode esconder sinais importantes. Aulas, trabalhos, esportes e compromissos ocupam o tempo e oferecem uma estrutura externa. Quando essa estrutura desaparece, sentimentos antes abafados podem surgir. A ansiedade ganha espaço, a solidão se intensifica e a falta de pertencimento se torna mais visível.
Observar o comportamento do adolescente nas férias não significa vigiar cada passo. Significa perceber mudanças em relação ao seu funcionamento habitual. Dormir mais por alguns dias pode ser natural. Entretanto, passar a maior parte do tempo na cama, abandonar atividades prazerosas e demonstrar apatia constante merece atenção.
Também é importante observar alterações no humor. Irritação excessiva, explosões repentinas, choro frequente ou respostas agressivas podem indicar que o jovem não está conseguindo organizar o que sente. Na adolescência, o sofrimento emocional nem sempre aparece como tristeza. Muitas vezes, ele se manifesta por meio de impaciência, isolamento, desinteresse ou conflitos constantes.
O uso excessivo das telas também precisa ser analisado com equilíbrio. Para alguns jovens, o celular é uma ferramenta de conexão. Para outros, torna-se uma forma de fugir de pensamentos, comparações e inseguranças. Quanto maior o desconforto interno, maior pode ser a necessidade de permanecer distraído.
O detalhe mais inquietante é que o adolescente pode não saber explicar o que está acontecendo. Ele sente, mas não consegue nomear. Sofre, mas teme ser julgado. Precisa de ajuda, mas acredita que pedir apoio será interpretado como fraqueza.
Por isso, a abordagem familiar deve ser acolhedora. Frases como “você não tem motivo para ficar assim” ou “na sua idade eu não tinha essas frescuras” fecham portas. Uma conversa mais cuidadosa pode começar com: “Percebi que você está diferente. Não quero pressionar, mas quero que saiba que pode contar comigo”.
Em muitos casos, o jovem pode não se sentir confortável para falar com os pais. Isso não significa falta de amor. Pode existir medo de decepcionar, preocupar ou perder a privacidade. Nesse momento, a psicoterapia torna-se uma importante estratégia de cuidado.
O psicólogo oferece um espaço seguro para que o adolescente compreenda emoções, reconheça gatilhos e desenvolva recursos para enfrentar conflitos. A psicoterapia não é uma punição nem a confirmação de que algo está errado. É um processo de fortalecimento emocional.
Talvez o silêncio seja apenas necessidade de descanso, ou talvez seja um pedido de ajuda ainda sem palavras.
O papel da família não é adivinhar tudo. É observar, acolher e agir antes que o sofrimento precise gritar para ser percebido.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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