Comportamento: Cacique Lidiane fala sobre preconceito, trabalho, preservação cultural e objetivos p

Variedades


(*) Marcus Guilherme Bianchi Yano

Lidiane Damasceno é a primeira cacique mulher do Estado de São Paulo. Conhecida na linguagem indígena como Anahí, hoje ela também ministra aula na Escola Estadual indígena “Índia Vanuíre” e cursa Licenciatura Intercultural Indígena (LINDI) na Unifesp, em Santos. Mas desde os 16 anos já atuava na área da educação.
À frente da Terra Indígena “Vanuíre”, localizada em Arco-Íris, Lidiane conhece as forças e as dificuldades enfrentadas pela comunidade indígena em que nasceu, cresceu, constituiu família e que atualmente tem a missão de atender as demandas do seu povo, preservar suas raízes culturais mesmo diante de um mundo dominado pela cultura “branca”.
Descendente de krenak e kaingang, Lidiane falou na entrevista sobre fatos do passado, a vida e o trabalho na comunidade, a preservação da cultura, e também sobre preconceito cultural, Marco Temporal e sobre o ensino na escola indígena na Terra Indígena Vanuíre.
Lidiane me concedeu entrevista em sua casa, localizada na Terra indígena Vanuire, e mostra que para os povos indígenas dia do índio é todo dia e que apesar das lutas diárias para preservar sua identidade, os povos indígenas, a exemplo da comunidade Vanuíre, resistem há mais de 500 anos.

Como é a escolha para ser cacique da Reserva Vanuíre?
A escolha para o cacique ou liderança é feita em uma assembleia geral da comunidade e a mesma faz o apontamento de quem quer como sua liderança.

Como é ser a primeira cacique mulher da reserva e como está sendo para a senhora esta função?
Para mim é honrar uma sequência, que está sendo mantida na minha família, pois os dois tios que me antecederam, eram os caciques da aldeia.
A cada dia é um desafio, mas conto com o apoio das demais lideranças da comunidade.

Quais seus objetivos com a comunidade da Reserva Vanuíre?
Meu objetivo é sempre atender e trazer melhorias para todos, no sentido coletivo.

Qual é a população da Reserva Vanuíre hoje e quais as atividades econômicas que todos exercem para se manter?
Hoje estamos em 235 membros, com 7 etnias diferentes, sendo que uma boa parte faz o cultivo agrícola, mas alguns são funcionários públicos em variados cargos ou CLT na cidade de Tupã.

Existem dificuldades enfrentadas pela Reserva Vanuíre. Quais?
Sim, como toda comunidade indígena, as dificuldades existem, mas lutamos arduamente para saná-las. Hoje, nossa maior preocupação é com a questão da terra, pois o espaço está ficando muito pequeno e nossa população está crescendo muito.

Durante o período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), havia uma crença dos políticos de que os povos originários iriam desaparecer. A política “integracionista” da época até colaborou para este desaparecimento, mas não aconteceu, pelo contrário, a população indígena cresceu. Há um sentimento, um ideal em preservar a cultura e a identidade indígena?
Lutamos arduamente contra a ditadura antes mesmo dela chegar aos não indígenas; após a idealização de comércio em nosso território, de progresso, nosso povo já era escravizado, perseguido, torturado e morto.
Hoje, nossa resistência é resposta pela luta dos nossos mais velhos para manter nossa resistência e persistência no nosso chão.

Existe preconceito ainda hoje com relação aos povos originários? A senhora já sentiu isto?
Sim, até hoje, existe muito, em todos os aspectos.

O SupremoTribunal Federal (STF) julgou inconstitucional o Marco Temporal, afirmando que os povos indígenas têm direito às terras tradicionalmente ocupadas independentemente de estarem nelas ou em disputa em 5 de outubro de 1988. Foi uma vitória para os povos indígenas?
Para mim foi uma das maiores vitórias para o nosso povo, mas não devemos baixar a guarda, pois todo tempo há investidas sobre nós, povos indígenas e nossos direitos.

Há alguns anos foi implantada na Reserva Vanuíre uma escola onde são resgatadas a línguagem, as raízes e a cultura de diversas etnias existentes na comunidade. Quem são os professores, quem são os frequentadores e como são as aulas?
Os professores são da aldeia que cursaram ensino superior na USP ou em universidade particular; os alunos também são crianças da própria comunidade local.

 Há interesse pelos mais jovens em aprender a linguagem e a cultura indígena?
Temos aulas de saberes e língua materna na nossa escola; temos uma boa aceitação dos nossos jovens da comunidade.

A comunidade da Reserva Vanuíre participou recentemente da montagem da nova exposição do Museu Índia Vanuíre de Tupã. Como foi esta experiência e o museu tem contribuido para resgate da identidade indígena?
O museu tem um papel de parceria muito grande com a comunidade da Aldeia Vanuire. Participar da montagem e elaboração da exposição é fortalecer e reafirmar nossa identidade cultural.

A grande maioria dos povos originários do Brasil acabou assimilando a cultura dos povos “brancos” até por questão de sobrevivência.  Como que é praticar o resgate das tradições e costumes originários dentro da escola e enfrentar o mundo que prega o consumismo, o individualismo e a falta de consciência com a preservação dos recursos naturais?
Na nossa comunidade, sempre pensamos no coletivo e sempre trabalhamos em grupo para a melhoria de nossa vida coletiva, então essas práticas são ensinadas há muito tempo, passam de geração em geração, então, muitas coisas lidamos com o ensino que nossos mais velhos já tinham passado para nós.

Hoje se vê muitos indígenas ingressando nas universidades como aluno e professor, no mercado de trabalho, na política partidária. Este movimento não os afastam da busca da identidade cultural ou é a busca da sua representatividade dentro da vida social e econômica do País?
Entendo isso como se armar das mesmas armas do homem branco, para proteger nossos povos, direitos e os parentes que estão nas bases (aldeia). Nós, indígenas, não deixamos de ser indígenas por ler bonito ou morar fora da aldeia; somos indígenas na alma, no sangue e na nossa ancestralidade.

O Censo Demográfico 2022, realizado pelo IBGE, apontou que existem no Brasil 391 etnias e 295 línguas indígenas, e uma população indígena somando 1.694.836 pessoas. Entretanto, pouco se aprende nas escolas brasileiras sobre a cultura indígena. Como vocês analisam este fato?
Acredito que quando vier um governo que, de verdade, se importa com a verdadeira história do Brasil, dos povos que aqui residiam e como foi a verdadeira colonização e o progresso brasileiro, ai sim poderemos reunir muitos materiais que contam a verdadeira história do nosso Brasil.  

O atual retrato dos povos indígenas no Brasil, que vai da desnutrição, pobreza, até brigas por território, está relacionado ao extermínio de milhões de pessoas de diversas etnias indígenas pelos primeiros colonizadores brasileiros, o que se evidencia até hoje pelo Norte do País. O Estado e a sociedade brasileira devem muito aos povos indígenas.  A senhora acha que tais problemas vêm sendo solucionados nas últimas décadas?
Falta muito para que isso aconteça, com políticas públicas realmente voltadas aos povos indígenas. Esse trabalho tem que ser feito ouvindo mais os índios. Fazer política pública para os indígenas, sem os indígenas, não funciona e nunca vai funcionar.

Existem kaingangs puros hoje na Reserva Vanuíre?
Hoje existem bem poucos na aldeia, mas tem sim.

A miscigenação da comunidade da Reserva Vanuíre com povos não originários coloca em risco o resgate da identidade indígena? Como a senhora e a Funai vêem esta questão dentro da Reserva hoje?
Independente da miscigenação, os nossos pequenos são indígenas. O pai ou a mãe que não é indígena é abraçado por nós da comunidade. São totalmente abraçados pela comunidade. Os que relutam diante de certas situações, são os próprios não-indígenas. Para nós, os filhos nascidos dessa união são nossos indiozinhos.

(*) Marcus Guilherme Bianchi Yano é jornalista

Sua notícia

Esta área é destinada para o leitor enviar as suas notícias e para que possamos inserí-las em nosso portal. Afim, da população ter informações precisas e atualizadas sobre os mais variados assunto

Envie a sua notícia por e-mail:

Todas as notícias

publicidade