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(*) Adriano de Oliveira
11/09/2026 - Durante muito tempo, a principal preocupação dos pais com o celular foi o número de horas diante da tela. Hoje, essa pergunta ficou pequena. O ponto talvez seja outro: o que acontece com um cérebro adolescente quando ele recebe, por horas, conteúdos escolhidos por sistemas capazes de aprender aquilo que prende sua atenção?
A adolescência é uma fase de intensa construção de identidade. O jovem testa estilos, valores, grupos, opiniões e formas de pertencer. Ao mesmo tempo, ainda desenvolve autorregulação, pensamento crítico e capacidade de sustentar escolhas diante de recompensas imediatas. É nesse período que Instagram, TikTok e outras plataformas oferecem um ambiente personalizado, no qual cada pausa, curtida, busca e repetição ajuda a definir o que aparecerá em seguida.
O problema não é simplesmente usar redes sociais.
Elas podem aproximar pessoas, favorecer criatividade e ampliar repertórios. A questão surge quando o adolescente passa a receber uma versão cada vez mais estreita do mundo. Se demonstra insegurança com o corpo, pode receber mais conteúdos sobre aparência. Se assiste vídeos de tristeza, pode entrar em um fluxo semelhante. Se busca aceitação, encontrará modelos de sucesso e beleza selecionados para mantê-lo conectado.
Esse processo pode afetar algo central no desenvolvimento: a autonomia.
O adolescente acredita estar escolhendo, mas muitas vezes está apenas reagindo ao próximo estímulo. E, quando a recompensa vem em vídeos curtos, novidades constantes e validação social, atividades que exigem espera — estudar, conversar, ler, praticar e lidar com frustração — podem parecer menos atraentes.
É por isso que proibir o celular, isoladamente, raramente educa. Controle sem conversa pode criar obediência temporária, mas não desenvolve consciência. Pais precisam substituir parte da fiscalização por alfabetização digital. Perguntar “o que esse conteúdo faz você sentir?”, “por que acha que isso apareceu para você?” ou “essa pessoa está mostrando uma vida real ou uma versão editada?” pode ser mais educativo do que broncas sobre tempo de tela.
O sinal de alerta não está apenas nas horas conectadas, mas no que começa a desaparecer: sono adequado, concentração, convivência familiar, interesse por atividades antes prazerosas, tolerância à frustração, desempenho escolar e relações presenciais. Quando o mundo offline perde valor, vale investigar o que o universo digital está oferecendo em troca.
Limites continuam necessários. Horários sem celular, refeições sem telas e proteção do sono são estratégias simples, mas pedem coerência dos adultos. É difícil ensinar presença enquanto os próprios pais respondem mensagens durante todas as conversas.
Talvez a pergunta mais importante não seja “como tirar meu filho do celular?”, mas “como ajudá-lo a continuar sendo autor das próprias escolhas em um ambiente criado para disputar sua atenção?”. Adolescência saudável não significa ausência de tecnologia. Significa desenvolver recursos internos para usá-la sem entregar a ela a própria identidade.
Quando há perda de autonomia, isolamento, queda de rendimento, ansiedade intensa ou mudanças persistentes de comportamento, uma avaliação psicológica ou neuropsicológica pode ajudar a compreender o que está acontecendo antes que tudo vire uma guerra por telas. O objetivo não é demonizar a tecnologia. É devolver ao adolescente algo que nenhum algoritmo deveria administrar por ele: a capacidade de pensar, escolher e construir quem deseja ser.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383 -
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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