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14/09/2026 - Infância feliz não é aquela sem nenhuma dificuldade. É aquela em que a criança tem o que precisa para crescer, aprender, errar e se sentir amada. Mas o que isso significa, na prática?
A psicóloga Júlia Martins de Rezende Vieira, do Hospital Brasília, da Rede Américas, e a pediatra Camila Luizetto, do Hospital Nove de Julho, também da Rede Américas, explicam o que uma criança realmente precisa para ter uma infância feliz.
1. Não existe infância perfeita, existe
infância suficientemente boa
A primeira coisa que a psicóloga Júlia Vieira deixa claro é que “a busca pela infância perfeita” pode ser um problema. “Não existe infância perfeita. Existe uma infância em que a criança encontra condições suficientemente boas para se desenvolver, explorar o mundo e construir recursos para lidar com aquilo que vai encontrar pelo caminho”, afirma.
“Talvez uma infância feliz não seja aquela em que nada de ruim acontece, mas aquela em que a criança pode viver suas experiências sabendo que existe alguém com quem pode contar.”
2. Vínculo afetivo estável
Para a pediatra Camila, vínculo afetivo estável é uma das necessidades mais básicas e inegociáveis da infância, junto de alimentação saudável, sono adequado, rotina e proteção. É a partir desse vínculo que a criança aprende a confiar no mundo e em si mesma.
Júlia Vieira aprofunda: “Um vínculo seguro oferece à criança uma espécie de confiança de base para que ela possa explorar o mundo. É quase como se a criança pudesse pensar: ‘Existe alguém que cuida de mim, então eu posso me sentir segura para explorar, descobrir e experimentar’.”
Ela ressalta que vínculo seguro não significa pais disponíveis o tempo inteiro, mas uma relação em que a criança encontra, de forma consistente, acolhimento, proteção e disponibilidade emocional.
3. Ser vista e
ouvida de verdade
Uma das principais portas de entrada para o mundo da criança, diz Júlia, é o brincar. “No brincar, ela não está apenas se divertindo. Ela comunica, experimenta papéis, expressa sentimentos e constrói sentidos sobre aquilo que vive”, explica Júlia.
“Às vezes, depois da escola, em vez de perguntarmos apenas ‘Como foi a aula?’ ou ‘Você fez a tarefa?’, podemos simplesmente estar disponíveis. Quando existe espaço para a espontaneidade, muitas coisas aparecem.”
4. Rotina e previsibilidade
Horários regulares de sono, refeição e atividades não engessam a infância: elas a estruturam. “Quando as coisas acontecem de uma maneira mais previsível na vida de uma criança, o mundo fica mais compreensível para ela. As crianças ainda estão desenvolvendo a capacidade de antecipar acontecimentos, então se há maior previsibilidade no dia a dia, há menos ansiedade e melhor regulação emocional”, explica Camila.
5. Sono de qualidade
“Quando uma criança dorme pouco ou mal, pode ficar mais irritável, impulsiva, chorosa ou desatenta”, alerta Camila. Garantir um ambiente propício para o sono, com horários regulares e sem telas antes de dormir, é um dos cuidados mais importantes.
Sono não é descanso passivo. É quando o cérebro processa experiências, consolida aprendizagens e regula emoções.
6. Alimentação variada e sem pressão
“Grandes períodos em jejum, dietas muito ricas em gorduras e açúcares e pobres em nutrientes influenciam comportamento, atenção e sono das crianças diretamente”, explica a pediatra. O ambiente alimentar saudável é aquele em que há variedade, sem pressão para comer tudo e sem usar comida como recompensa ou punição.
7. Brincadeira
livre e movimento
A brincadeira livre, sem tela e sem adulto dirigindo, continua sendo uma necessidade real de desenvolvimento.
“Brincar livre significa ter tempo para explorar, imaginar e experimentar. Quando a criança brinca, funções executivas, criatividade, linguagem, regulação emocional e habilidades sociais são exercitadas simultaneamente”, explica Camila. E quando a brincadeira envolve movimento, o corpo também ganha: coordenação, equilíbrio e um sono mais adequado.
8. Contato com a natureza
“Há muitas evidências científicas de que estar em contato com a natureza pode ajudar a reduzir o estresse e melhorar o bem-estar. Em ambientes ao ar livre, criam-se oportunidades diferentes para a criança se movimentar, brincar livremente e afastar-se de ambientes altamente estimulantes”, afirma Camila.
9. Limites claros e consistentes
Limite não é punição. É estrutura. E criança sem limite não é criança livre, é criança ansiosa.
“Crianças precisam saber que existem regras e por que elas existem. Isso dá base para a formação de um indivíduo em crescimento e para o futuro adulto que ele será”, explica Camila. Ela reforça que rotina e regras não significam rigidez: “Ensinar limites também inclui ensinar tolerância, resiliência e persistência quando as coisas não acontecem conforme o previsto.”
10. Poder errar
sem ter medo de decepcionar
“Uma criança precisa experimentar que nem sempre vai ganhar, conseguir, acertar ou ter aquilo que deseja. É justamente nessas experiências, quando acompanhadas por um adulto que oferece suporte, que ela pode desenvolver recursos importantes para lidar com a vida”, diz Júlia Vieira.
A psicóloga orienta que diante de um erro, os pais podem acolher a frustração e depois ajudar a criança a pensar: “O que aconteceu? O que você gostaria de fazer diferente?” Assim, ela vai aprendendo que errar não define quem ela é.
11. Amizades e pertencimento
As relações com os pares vão se tornando cada vez mais importantes ao longo do desenvolvimento.
“Nas relações com outras crianças, ela encontra pessoas que não necessariamente pensam, sentem ou agem como sua família. É nesse encontro com o outro que ela pode negociar, esperar, compartilhar, lidar com conflitos e desenvolver empatia”, explica Júlia. “Amizade não é apenas uma questão de companhia. É também um espaço de desenvolvimento.”
12. Pais suficientemente bons, não perfeitos
“Nasce a mãe e o pai, nasce a culpa”, diz Júlia Vieira, citando uma frase que traduz bem a experiência de sentir que nunca se está fazendo o suficiente. Mas ela é direta: pais vão se irritar, vão errar, vão perder a paciência. O que importa não é nunca falhar, mas reconhecer quando algo não foi bem e retomar a relação.
“Não se culpe, mas se responsabilize. A culpa muitas vezes paralisa. A responsabilidade nos permite olhar para aquilo que podemos fazer diferente”, afirma ela.
A pediatra Camila complementa com o essencial: “Uma criança feliz precisa de condições físicas, emocionais e de saúde para viver plenamente a infância: brincar, aprender, se sentir importante, livre e amada.”
E Júlia destaca: “Uma criança precisa de presença. Uma presença que acolha quando ela estiver com medo, frustrada ou triste. Porque talvez uma infância feliz não seja aquela em que a criança nunca sofre. É aquela em que, diante do sofrimento, ela não precisa se sentir sozinha.”
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