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(*) Adriano de Oliveira
02/10/2026 - À noite, a casa finalmente fica silenciosa. Os pais acreditam que o adolescente foi dormir, a porta do quarto se fecha e as luzes se apagam. Entretanto, sobre o travesseiro existe uma pequena janela que continua oferecendo conversas, vídeos, jogos, notícias e notificações. O corpo está na cama, porém o cérebro, nem sempre.
O sono dos adolescentes voltou ao centro das discussões nesta semana com a divulgação de dados apresentados no congresso SLEEP 2026. Os pesquisadores observaram que, nas noites em que adolescentes utilizavam o smartphone antes de dormir mais do que o habitual para eles, também tendiam a permanecer ativos no aparelho durante mais tempo naquela mesma noite. O achado não significa que toda utilização de tela seja causa direta de insônia, mas reforça um comportamento importante: levar o celular para a cama pode facilitar que o momento de desconexão seja continuamente adiado.
Isso ocorre justamente em uma fase em que dormir adequadamente é essencial para o desenvolvimento. O sono participa da consolidação da memória, da aprendizagem e da regulação emocional, além de influenciar funções executivas como atenção, planejamento, organização e controle dos impulsos.
Quando o adolescente dorme mal, entretanto, raramente aparece pela manhã dizendo: “Meu raciocínio e atenção estão prejudicados”.
Ele aparece irritado, esquece tarefas, demora para levantar, parece desatento, não consegue começar aquilo que precisa fazer, perde a paciência facilmente. Nesses momentos os adultos concluem: “Está preguiçoso”, “não tem responsabilidade” ou “não quer saber de estudar”, mas pode existir outro problema: um cérebro cansado possui menos recursos para realizar justamente aquilo que estamos exigindo dele.
Há ainda uma característica importante das tecnologias atuais. O adolescente não precisa decidir conscientemente passar duas horas acordado. Basta decidir ficar “só mais cinco minutos” repetidas vezes. Um vídeo leva a outro. Uma mensagem exige resposta. Uma notificação reabre uma conversa. A próxima recompensa está sempre a poucos segundos de distância.
Uma ampla revisão recente sobre desenvolvimento e exposição às telas também reforçou associações entre uso elevado de dispositivos e diferentes indicadores de aprendizagem, comportamento e bem-estar, embora os pesquisadores ressaltem que relações desse tipo são complexas e não permitem transformar “tempo de tela” em explicação única para todos os problemas.
A solução, portanto, não deveria ser declarar guerra ao celular. Proibição sem educação pode produzir apenas utilização escondida. O objetivo é desenvolver autorregulação.
Talvez seja melhor substituir “quanto tempo você ficou no celular?” por uma pergunta mais inteligente:
“O que o celular está tirando da sua vida?”
Quando a resposta começa a envolver sono, disposição, pontualidade, estudos, atividade física e convivência, existe um custo que precisa ser discutido.
As famílias podem criar um período de desaceleração antes de dormir, reduzir notificações, combinar um horário para encerrar conversas digitais e deixar o aparelho carregando distante da cama. Entretanto, esses acordos funcionam melhor quando os adultos também participam deles.
Também é importante não atribuir todos os problemas ao telefone. Alterações persistentes de sono, atenção e comportamento podem estar relacionadas a ansiedade, depressão, TDAH, alterações do ritmo circadiano, dificuldades acadêmicas ou outros fatores.
É nesse ponto que uma avaliação clínica ou neuropsicológica pode contribuir: compreender se estamos diante de hábitos, dificuldade de autorregulação ou de uma manifestação pertencente a um quadro mais amplo.
Muitos pais querem filhos mais disciplinados, porém a disciplina também precisa de um cérebro minimamente descansado.
Antes de cobrar que seu filho esteja plenamente concentrado às sete da manhã, talvez seja necessário descobrir o que estava acontecendo às duas.
Porque o celular pode não dormir, mas seu filho precisa.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383 -
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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