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(*) Adriano de Oliveira
09/10/2026 - Durante alguns anos, parecia que a cultura da magreza extrema estava perdendo espaço. Falávamos mais sobre diversidade corporal e autoestima. Mas as redes sociais têm uma habilidade perigosa: antigas pressões podem voltar com uma nova estética, uma nova hashtag e a aparência de “estilo de vida saudável”.
Nesta semana, o chamado “SkinnyTok” voltou ao centro das discussões sobre adolescentes. O conteúdo valoriza corpos extremamente magros e, muitas vezes, apresenta restrição alimentar e controle rígido do peso como símbolos de disciplina e sucesso. Para adultos, determinadas mensagens podem parecer apenas tendências. Para um adolescente em formação, podem se transformar em critérios para medir o próprio valor.
A preocupação também ganhou repercussão após estudo publicado no JAMA Network Open envolvendo quase nove mil adolescentes. Os pesquisadores encontraram associação entre possuir smartphone aos 12 anos e maior probabilidade de sintomas de comportamento alimentar desordenado posteriormente, incluindo compulsão alimentar e vinculação da autoestima ao peso. O estudo não prova que o aparelho seja a causa, e os próprios autores ressaltam que outros mecanismos precisam ser investigados, e mesmo assim, surge uma pergunta urgente:
O que acontece quando um adolescente recebe acesso constante a ambientes que avaliam corpos o dia inteiro?
A adolescência já é uma fase de intensa transformação física. O corpo muda enquanto o jovem ainda tenta compreender quem está se tornando. Nesse período, comparação social, pertencimento e aprovação dos pares ganham enorme importância. Agora imagine essa vulnerabilidade diante de um algoritmo capaz de repetir exatamente o conteúdo que capturou sua insegurança.
Uma menina pesquisa como diminuir a barriga, assiste a alguns vídeos e passa a receber mais do mesmo. Em pouco tempo, seu feed pode parecer confirmar que todo mundo está emagrecendo e buscando um corpo que ela não possui. Com meninos, a pressão pode assumir outra forma: musculatura, definição, suplementação e desempenho.
O problema não começa somente quando aparece um transtorno alimentar. Pode surgir em frases como: “estou enorme”, “não vou comer isso”, “preciso compensar”. Também pode aparecer como medo exagerado de engordar, culpa após refeições, exercício compulsivo, comparação corporal constante ou mudanças repentinas nos hábitos alimentares.
A reação familiar é decisiva e ridicularizar a preocupação ou responder apenas “mas você nem está gorda” pode encerrar a conversa sem diminuir o sofrimento. O adolescente precisa encontrar adultos capazes de perguntar o que aquela imagem corporal representa emocionalmente.
Também vale observar o ambiente doméstico. Como os adultos falam do próprio corpo? Como comentam o peso de outras pessoas? A casa ensina tanto quanto o Instagram.
O objetivo não é ensinar adolescentes a “amar o corpo” todos os dias. Isso também pode virar uma exigência impossível. O objetivo é construir uma relação menos hostil com o corpo, em que a aparência não seja o principal indicador de valor pessoal.
Quando surgem perda ou ganho importante de peso, restrição alimentar, compulsão, comportamentos compensatórios, sofrimento intenso com a imagem ou isolamento social, é hora de buscar avaliação profissional. Psicoterapia, avaliação médica e acompanhamento nutricional especializado podem ser necessários.
Talvez a pergunta mais importante para os pais não seja “meu filho está magro ou acima do peso?”. É outra: “quanto do valor que ele atribui a si mesmo passou a depender daquilo que vê no espelho e na tela?”
Porque quando a autoestima começa a ser medida em quilos, centímetros e curtidas, o problema nunca é apenas estético.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você. Vamos conversar ?
(*) Adriano de Oliveira,
psicólogo clínico e neuropsicólogo -
CRP: 06/150383 -
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira
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