São as águas de março

Geral


(*) Osvaldo Teruo Morinaga

11/03/2026 - As condições climáticas poderiam ser imutáveis. Não são. O planeta é um ser vivo, em constante mutação. Quantos bilhões de anos já se passaram para que o equilíbrio se estabelecesse? É um constante ajustamento. Quando vemos a natureza procurando o ponto de equilíbrio, achamos que tudo virou um caos total. Acredito que vivemos o ajuste fino da natureza e as poucas intervenções das forças naturais ainda causam espanto aos frágeis humanos que nos tornamos. 
Acontecem poucos acidentes geológicos de grande monta atualmente e já nos espantamos com a nossa fragilidade. Um terremoto de grandes proporções pode devastar um continente inteiro e suprimir toda a vida em um determinado local. Uma grande erupção vulcânica pode destruir uma grande ilha ou criar outros arquipélagos. 
Diante das forças naturais somos um nada. Tememos o choque de um corpo celeste, tipo meteoro ou asteroide de grandes proporções contra o nosso planeta. Uma catástrofe de grande monta seria o fim da humanidade e talvez até da vida em nosso planeta. 
Tememos as forças desconhecidas e não controláveis. Tememos o oculto e o invisível. Ao olharmos ao nosso atual estágio de desenvolvimento, podemos ter a impressão de que habitamos o paraíso prometido pelo nosso Criador. Existe harmonia entre os seres viventes, a natureza pode trabalhar a nosso favor e se fossemos conscientes poderíamos viver bem com todos os seres naturais. Entretanto, não somos capazes de conviver com os da nossa própria espécie. Vivemos tempos de intolerância, de cobiça e violência que podem nos levar à autodestruição. Vivemos explorando o trabalho dos outros para nos alimentarmos, para nos locomovermos, destruindo a vida para preservarmos a nossa própria. 
Para um ser humano basta-lhe pouco para sobreviver: alimentação, condições dignas de moradia e paz e harmonia para viver em comunidade. No entanto, exigimos muito de nós mesmos para satisfazer esses três itens. Exploramos e produzimos muito para satisfazer a fome, queremos quantidade e qualidade de alimentos enquanto grande parte da humanidade está morrendo de fome. Um abrigo que nos proteja das intempéries do clima é o suficiente para nos dar conforto e bem estar. No entanto, queremos casas luxuosas, mansões, apartamentos gigantescos com toda a comodidade, enquanto os ursos e lobos se contentam com as escuras cavernas. E muitos desalentados moram em favelas, quando não nas ruas. 
Uma sociedade pacífica e harmônica só é possível com um regime político adequado. No ocidente adotamos a democracia, onde os direitos deveriam ser iguais e os corações mais fraternos e pacíficos. Estamos ainda longe de atingirmos o patamar aceitável para que tudo flua com paz e harmonia. 
O coração humano ainda é suscetível a arritmias e pulsações irregulares e enquanto não ocorrer a superação do fosso das diferenças sociais não entrará em ritmo e frequências normais. 
Temos uma natureza exuberante que nos acolhe e agasalha, mas poucos usufruem das suas benesses. Nesses tempos de ansiedade e insegurança, devíamos fazer uma profunda reflexão e consultar a consciência para sairmos dessa concha que ao mesmo tempo nos protege e nos condena.
 O sofrimento coletivo descerra as cortinas da hipocrisia e do egoísmo. O que consegui fazer de concreto nesse tempo pós-pandemia e recuperação do ritmo normal da vida? A vida continuou, apesar dos sonhos que se diluíram, dos planos adiados ou desfeitos, das ações interrompidas e das esperanças apagadas como aconteceu à maioria das pessoas. 
Estou apenas sobrevivendo. Enquanto lá fora chove, tento relacionar o seu regime com a minha vida. Todos os anos acontecem de maneira semelhante, com chuvas torrenciais nessa época do ano. São as águas de março fechando o Verão. Ocorrem catástrofes, inundações, grandes alagamentos e perigosos deslizamentos das encostas. Todos os anos ocorrem da mesma maneira e achamos que isso é tudo inédito. 
É a reprise do ano passado, retrasado e assim vai. Não planejamos nossas cidades para aceitar a natureza como ela é. Tentamos criar um mundo ideal sem inserir a natureza nos nossos planos. Assim, as cidades se alagam, os pobres ribeirinhos perdem os seus pertences e choram a casa perdida.  Temos que nos integrar à natureza e aprender com as perdas. Tudo é passageiro.

(*) Osvaldo Teruo Morinaga - osvaldomorinaga@gmail.com

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