Um tal de 'lei da física' - o jogador invisível

Geral


28/08/2026 - A parada de hoje aconteceu lá pelos lados do então recém-criado Estado do Mato Grosso do Sul. Uma história que guardo com muito carinho e que sempre me vem à cabeça quando ouço "Pé de Cedro", de Biá e Dino Franco, principalmente no trecho que diz:
"Foi num belo Mato Grosso há vinte anos atrás, naqueles tempos queridos que não voltam nunca mais."
Só para esclarecer: o famoso pé de cedro da música não tem nada a ver com a história. E, apesar de a música falar em "vinte anos atrás", essa história aconteceu há mais de quarenta.
Naquela época, meu saudoso primo Jussa trabalhava com desmatamento e terraplenagem, operando uma assustadora Caterpillar. Para mim, aquela máquina era uma verdadeira fera. Eu tinha um medo danado de chegar perto da "bicha", principalmente quando estava funcionando. Na minha cabeça de moleque, a qualquer momento aquele trem podia criar vida própria, sair do controle e vir atrás da gente.
E acho que boa parte desse medo vinha dos desenhos animados, que colocavam cada ideia maluca na nossa cabeça. Naquele tempo, para nós, desenho animado e realidade quase se misturavam. Se nos desenhos até as coisas ganhavam vida, por que aquela Caterpillar não poderia fazer o mesmo?
Os trabalhos do Jussa normalmente eram aqui pela região, mas apareceu uma empreitada mais longe, numa grande fazenda do Mato Grosso do Sul. O serviço estava programado para durar uns dez dias e, como estávamos de férias escolares, eu e o outro primo, irmão do Jussa, fomos com ele - porém, com um certo medo no lombo. Afinal, naquela época o povo falava que, para aquelas bandas, onça-pintada era o que não faltava.
Logo que chegamos, Jussa foi encarar seu serviço pesado, enquanto nós aproveitamos para conhecer o lugar, sempre com aquele receio de trombar com alguma pintada pelo caminho.
Felizmente, durante nossa estadia, não encontramos onça nenhuma. O máximo que conseguimos foi ouvir alguns sons estranhos durante a noite. Nosso precário alojamento, feito de lona preta na carroceria do caminhão que havia trazido a máquina, ficava praticamente ao pé da floresta. Quando a noite chegava, junto com o barulho dos bichos vinham também uns urros que, para os nossos ouvidos de moleque, pareciam ser de onça.
Não sei até hoje que bichos eram aqueles, mas também ninguém teve coragem de sair do alojamento para conferir. O resultado era que, na hora de dormir, a gente se cobria dos pés à cabeça, deixando só o nariz de fora.
Vai que a pintada resolvesse aparecer, né?
Como sempre íamos "na faixa" com o Jussa, nossa contrapartida era ajudar no alojamento, principalmente lavando os utensílios. Afinal, Jussa era um autêntico "queima-lata", pois não tinha cozinheiro, então ele mesmo é que fazia sua própria comida, num fogão a lenha improvisado com tijolos.
E foi nesse meio de mato, entre a Caterpillar do Jussa, os sons misteriosos da floresta e o medo de alguma pintada aparecer, que eu encontrei aquilo que realmente me interessava: um campinho de futebol.
Como minha fome por futebol sempre foi insaciável, logo tratei de fazer amizade com a molecada da fazenda vizinha. Não deu outra: de primeira já fui convidado para a peleja do fim de semana.
No dia do jogo, meu primo, que não era muito chegado em futebol, ficou encarregado das louças, enquanto eu fui bater minha bolinha.
O campo era uma verdadeira ladeira, muito mais inclinado do que aquele campo do time do Bairro Toledinho, onde já era difícil de jogar. E, no primeiro tempo, jogamos morro acima.
Parecia que tudo estava contra nós.
A gente tocava a bola, dominava o jogo, tentava atacar, mas era só mandar a redonda para frente que ela parecia perder força. Em compensação, os caras recuperavam e desciam embalados. A bola ganhava velocidade, os jogadores vinham junto e o nosso goleiro tomava sufoco.
Tomamos um caminhão de gols. E o pior: a subida castigava. O pulmão já estava pedindo arrego e parecia que a gente estava jogando na altitude de La Paz.
Mas não era altitude. Era a subida do campo.
Só que aí veio o segundo tempo. Agora era a nossa vez de jogar morro abaixo.
Bastava tocar a bola para frente que ela ganhava velocidade. Um passe de dez metros parecia virar de vinte. Um chute de longe virava um foguete. Os caras lá de cima mal conseguiam acompanhar.
Saiu o primeiro gol. Depois outro. E mais outro.
A bola desviava, acelerava, pegava embalo... Teve gol de tudo quanto foi jeito. Até parecia que tínhamos contratado a gravidade para jogar no nosso time. Assim como eles fizeram no primeiro tempo, nós também fizemos um caminhão de gols no segundo.
E foi aí que descobri que, naquele campinho, existia um jogador invisível: o "Lei da Física", o verdadeiro craque daquele lugar. Ele não precisava ser escalado, não usava uniforme, não tinha posição e muito menos aparecia na súmula. Simplesmente entrava em campo e jogava para o time que estivesse atacando morro abaixo.
No primeiro tempo, jogou com eles. No segundo, mudou de camisa e veio para o nosso lado.
E o danado era bom de bola!
Que arrebentou com o jogo!

"Minhas divertidas aventuras pelo mundo do futebol de várzea - aquele que amamos chamar de 'rachão', 'pelada', 'quebra-dedo', 'arranca-toco', entre tantos 
outros apelidos divertidos."
Texto: Paulo Cesar - PC

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